Bem-vindo ao museu vivo. Explore a história e o património arquitectónico da aldeia. Desfrute da imensa paisagem e dos ricos habitats naturais ao longo do percurso.

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Museu do Mar e da Terra da Carrapateira

Orgulhosos das suas origens, os moradores da aldeia deram forma a um sonho: o de homenagear a terra onde nasceram. Assim surgiu o museu. Um espaço vivo, onde as histórias destas gentes ligadas à terra e ao mar se cruzam com a singularidade da natureza local. Venha explorar a identidade da aldeia com a “baleia Jonas”, através de um percurso de contrastes, entre artefactos e vivências diversas.

É um testemunho das suas gentes para outras gentes. É uma viagem ao encontro da memória dos homens e mulheres – agricultores, pescadores, marisqueiros - e das suas atividades tradicionais, seguindo um percurso de contrastes, entre artefactos e vivências diversas. Idealizado e construído a partir da ideia, do esforço e vontade dos seus residentes, o Museu do Mar e da Terra da Carrapateira, no Concelho de Aljezur, revela genuinamente a identidade dos seus habitantes, dos seus usos e costumes e das suas tradições, ao mesmo tempo que valoriza e integra o património natural da Carrapateira, nascido entre escarpas e falésias em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Fotografias, documentos históricos, documentários, testemunhos, objetos e outros artefactos são as pontes que permitem conhecer o modo de vida destes habitantes, gente corajosa e brava, desde sempre ligada à terra e ao mar. O acervo exposto é o resultado de vários anos de investigação etnográfica, que contou com a elevada participação da população local. Pertencente a uma nova geração dos museus de vocação comunitária, este é um espaço cultural que aposta no desenvolvimento local.

A exposição permanente “O oceano, a nossa terra” começa por caracterizar o meio natural da Carrapateira. Através da reprodução animada do fundo do mar e da reconstituição ambiental da flora costeira, o museu pretende promover os recursos naturais locais, valorizar e mostrar o património geológico, os fósseis, as floras e faunas marinhas e terrestres, apresentando-se igualmente como elemento complementar à oferta turística da região. Depois, através de documentos e fotografias, desfia-se o quotidiano da aldeia, desde a passagem dos povos árabes que aqui viveram – primeiro núcleo berbere - até aos dias de hoje. Os habitantes, desde sempre, dividiram a labuta diária entre a agricultura e a pesca. Até às décadas de 40/50 do século XX, a agricultura constituía a principal fonte de rendimentos das famílias. Quase todas as famílias tinham um bocadinho de terra, onde cultivavam as suas hortas, plantavam as vinhas de onde retiravam o vinho, faziam pão e mel. Mas a partir da década de 50, a agricultura conheceu uma época de recessão e a população, para fazer face às dificuldades, virou-se

mais para a pesca e para apanha do marisco, que até a essa altura só eram vistas como atividades complementares e subsidiárias. Esta evolução pode ser acompanhada pelos objetos expostos, desde os instrumentos para trabalhar a terra, como os arados, as foices, as charruas puxadas pelo gado, até às redes de pesca, as ânforas e os anzóis. Hoje, a pesca e a apanha do marisco são fontes de receitas importantes, embora o turismo também comece a pesar na economia local.
O percurso termina com uma vista panorâmica absolutamente inesquecível sobre a aldeia, as falésias apraia e o oceano.

Jonas – personagem inspirada na verdadeira baleia-anã de sete metros que deu à costa da Praia de Vale Figueira, em 1992 - é quem guia os visitantes ao longo deste itinerário etnográfico. Reza a lenda que Jonas perdeu a vida nas areias da costa de Aljezur por querer conhecer a beleza natural da Carrapateira. Este mítico cetáceo representa o sonho dos habitantes de querer homenagear a bravura dos homens e mulheres da aldeia e a terra que os viu nascer.
O Museu do Mar e da Terra da Carrapateira foi inaugurado em maio de 2008. Recebeu nesse mesmo ano uma Menção Honrosa, na categoria de Novo Projeto Público, no âmbito dos Prémios Turismo de Portugal.

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Aldeia da Carrapateira

As casas brancas da Aldeia da Carrapateira estendem-se harmoniosamente pelo sopé da encosta, resistindo aos ventos fortes da Costa Vicentina, enquanto as ruas íngremes e estreitas abrem caminho a diferentes aventuras e experiências. Venha visitar o mercado e prove os produtos tradicionais, descubra a Igreja e explore a fortaleza que protegeu a aldeia dos ataques dos corsários marroquinos no século XVII.

A Aldeia da Carrapateira cresceu no cimo de um cerro, ao sabor do terreno íngreme, paredes meias com a costa litoral a sudoeste, no concelho de Aljezur. Entre falésias e dunas, paragens agrestes e húmidas, ventos fortes e um mar violento que chicoteiam as escarpas escorregadias, os habitantes desta aldeia cedo souberam adaptar-se às difíceis condições naturais da região.
Construíram casas térreas, imaculadamente brancas, coladas umas às outras e erguidas em taipa, com telhados de uma só água - esta última característica é uma herança dos povos do norte de África quando aqui habitaram e que usavam esta técnica de construção. Aliás, foi o período árabe, entre os séculos VIII e XIII, que mais influenciou a história e o modo de vida dos habitantes da Carrapateira, embora achados arqueológicos atestem a presença do homem no período do Paleolítico Antigo ou Médio nesta zona. São também dadas como certas as presenças celtas e romanas, bem como a de fenícios e gregos que terão usado a Ribeira da Carrapateira como ancoradouro para embarcações.
Hoje, a Carrapateira é mais do que um povoado de agricultores e de pescadores, de gente simples que ama a terra onde nasceu. Ela é também uma aldeia frequentada por amantes da natureza, dos desportos radicais, como o surf e o kitesurf, que procuram as praias locais com excelentes condições à prática destas modalidades. Este cruzar entre visitantes e residentes imprime um toque “cosmopolita” à aldeia que se manifesta com mais visibilidade no Largo do Comércio.

LARGO DO COMÉRCIO
É o ponto de encontro dos habitantes, onde a vida coletiva e social acontece, é também aqui que se situam as lojas de artesanato, os cafés, as casas de petisco e o tradicional mercado municipal. É um espaço amplo, muito apreciado pelos habitantes, onde podem fazer as suas compras, comprar o jornal ou fazer um passeio a pé. Ocasionalmente realizam-se espetáculos de variedades e outras festas. É o lugar de eleição para os divertimentos públicos, para a realização de procissões e de outros eventos. Nas noites de calor, o largo é o espaço privilegiado para o convívio. A partir do Largo do Comércio abrem-se ruas que permitem conhecer o restante povoado, bem como o Museu do Mar e da Terra – espaço museológico que preserva a identidade local - localizado no topo da aldeia é um verdadeiro miradouro sobre o atlântico e a paisagem dunar. O núcleo urbano alberga ainda a Igreja e a fortaleza da Carrapateira, testemunhos da história da aldeia.

Da Igreja de Nossa Senhora da Conceição à Fortaleza Erguida no cimo de um cerro, de onde se avista a costa, a Igreja da Carrapateira está envolta em algum mistério, pois desconhecem-se informações essenciais. Não se sabe ao certo a data da sua construção, mas algumas investigações apontam que o templo tenha sido edificado durante a primeira metade do século XVI. O culto é dirigido à Imaculada Conceição de Maria. Padroeira do Reino de Portugal desde 1325, a Virgem foi coroada rainha pelo rei D. João IV, em 1646, após a restauração da independência. Os habitantes da aldeia pedem-lhe proteção, em especial os pescadores que lhe dirigem as orações quando vão para a faina e têm que enfrentar um mar revolto.

A fachada pura e minimalista da igreja e as duas portas manuelinas, de cantaria lavrada, são um convite ao seu interior de uma só nave, onde se destacam um altar em talha dourada do período barroco e duas tábuas quinhentistas, atualmente colocadas na parede frontal de alvenaria branca, e q ue representam Santo António de Lisboa e São Pedro. De acordo com o historiador Vítor Serrão, é provável que estas obras tenham saído da mesma oficina, possivelmente situada em Lagos, cidade onde operavam algumas oficinas de pintura maneirista, por volta de 1570. Embora se desconheça a autoria das pinturas, há indícios de que se tenha tratado de um mestre, também autor das duas tábuas da Igreja Matriz de Vila do Bispo, praticante da modalidade de óleo, e que pertenceu à primeira geração da pintura maneirista portuguesa. A pia baptismal hexagonal, de pedra calcária de cor amarelada, é outro elemento assinalável do período manuelino. No lado direito da fachada principal da igreja existe ainda um simples campanário, com um pequeno sino inglês, onde se lê em grandes letras a palavra “WAIMATE”. Crê-se ser uma referência ao navio “SS Waimate” (1896-1925), que naufragou a

cinco milhas ao largo do Cabo de São Vicente, carregado de carvão, quando realizava uma viagem de Clyde, cidade do estado norte-americano de Carolina do norte, para Génova, em junho de 1925. É muito provável que o sino tenha sido resgatado e colocado no campanário para cumprir os fins religiosos.
Por encontrar-se entre duas praias de muito fácil acesso, a do Amado, a Sul, e a da Bordeira, a norte, a aldeia da Carrapateira estava exposta a ataques de corsários e piratas marroquinos que saqueavam a povoação, as suas casas – ainda hoje as casas preservam no seu interior as passagens secretas que os habitantes usavam para fugir dos temíveis corsários marroquinos que atacavam a costa litoral vicentina -, profanavam a igreja, pilhavam as relíquias sacras e capturavam os habitantes. Perante esta situação de permanente terror os habitantes da Carrapateira pediram proteção ao monarca. As suas súplicas foram atendidas pela corte em 1673, por D. Nuno da Cunha e Ataíde. Sensível ao terror da população, o Conde de Pontével e Governador do Reino do Algarve mandou edificar um forte, com um formato de estrela de quatro pontas, em redor da igreja, para efeitos de defesa militar. A fortaleza foi construída a 1.200 metros da praia sobre o cabeço da Carrapateira, com uma altura de 70 metros. Tinha ângulos reentrantes e em cada uma das suas pontas estavam artilhadas com seis peças de fogo e onze soldados. Consta que depois da construção da fortaleza, nem a igreja nem a população voltaram a ser alvo de ataques de piratas. Com o decorrer dos anos, a fortaleza foi sofrendo deterioração progressiva. Atualmente, já não apresenta o traço e a extensão originais e só uma parte faz parte da construção inicial.

EVOLUÇÃO DA FREGUESIA
Não se sabe ao certo a data da criação da freguesia da Carrapateira. Ao longo do século XIX, pertenceu por diversas vezes tanto ao concelho de Vila do Bispo como ao de Aljezur. Só em 1898 é que passou definitivamente a pertencer ao concelho de Aljezur, integrada na freguesia da Bordeira. Na década de 1960, em pleno Estado Novo, a Carrapateira assistiu à emigração dos seus habitantes. Após a Revolução de 25 de abril de 1974, houve uma evolução qualitativa no modo de vida da população: além da eletrificação da aldeia, houve um melhoramento significativo da rede de águas e esgotos, bem como a construção de infraestruturas coletivas, nomeadamente o mercado, o lavadouro público e o telefone público. Atualmente, com cerca de 200 habitantes, a localidade da Carrapateira abre os braços para quem a quer visitar, oferecendo um turismo de natureza e um património gastronómico, etnográfico e arquitetónico que merecem ser conhecidos.

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Praia da Bordeira

Com um extenso areal de formas harmoniosas, que se prolonga por 3 km, e dunas cobertas de vegetação baixa, a Praia da Bordeira é atravessada por uma ribeira que se serpenteia até à foz. Faça parte deste cenário e caminhe pelas areias douradas, assista ao planar do voo da águia pesqueira e às brincadeiras das lontras nas margens da ribeira.

É uma imensidão de dunas. É um areal que se perde de vista, recortado por uma linha de água que se serpenteia até ao mar e que dá de beber às aves planadoras. É a natureza em estado puro. A Praia da Bordeira, a norte do Pontal da Carrapateira, é a mais extensa do concelho de Aljezur, com um areal de cerca de 3 km, rica em termos paisagísticos, com as suas arribas, dunas e estuário. Um lugar inspirador, onde se sente a generosidade infinita da natureza.
É a pé, passeando calmamente pela beira-mar, que melhor se descobre esta imensa praia quase deserta, onde os únicos apelos são os da contemplação das ondas, da brisa que refresca a pele, da maresia, do voo das aves piscatórias. Os campos dunares, que resultam dos fortes ventos do quadrante noroeste, estão em constante movimento e avançam até às portas da Aldeia da Carrapateira, proporcionando diferentes habitats às várias espécies de arbustos que ali se desenvolvem e que contribuem para a fixação das areias. As arribas da Praia da Bordeira, de natureza calcária, são muito procuradas por diversas aves marinhas, como a águia-pesqueira, que aqui encontram refúgio. Recortada pela Ribeira da Bordeira,

uma linha de água que forma uma lagoa de águas tépidas perto da foz, é muitas vezes possível avistar lontras a chapinhar na água. Quando o mar está bravo ou a maré está cheia, pode ser usada como praia fluvial pelas famílias veraneantes. Há vestígios arqueológicos que provam que, em tempos, a ribeira foi usada como tercena – edifício onde se guardam as embarcações – por fenícios, gregos, celtas e romanos quando passaram por esta região, e também como facilitadora de acesso ao estaleiro naval que existia no estuário da Ribeira da Carrapateira, durante a época dos Descobrimentos Marítimos. Antigamente, aos domingos, famílias inteiras faziam piqueniques nesta praia e apanhavam polvos nas rochas. O banho de 29 de agosto, uma tradição antiga com muita expressão na região, era um momento de sociabilidade, desfrutado por toda a população. Acreditava-se que neste dia a água era benta. Daí que homens, mulheres, crianças iam a banhos. Nem os animais escapavam que eram molhados pelos donos. Hoje, os amantes de desportos náuticos, como os praticantes de kitesurf, procuram muito esta praia, por causa da intensidade dos ventos dominantes e formação das ondas.

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Os descobrimentos e o naufrágio do la condesa

A Costa Vicentina destaca-se por ter desempenhado um papel fundamental durante o século XV, o alvor das descobertas marítimas, mas também por guardar tesouros naufragados, como o do navio da armada espanhola “La Condesa”. Mergulhe neste mistério e descubra este e outros tesouros que repousam no fundo do mar.

A Costa Vicentina e os Descobrimentos
Se a Costa Vicentina se destaca por guardar tesouros naufragados nas suas profundezas, a sua importância aumenta quando se trata do papel fundamental que desempenhou durante o século XV, o alvor das Descobertas Marítimas. Navegadores portugueses lançaram-se ao mar. Partiram do extremo sudoeste de Portugal, contornaram o continente africano e alcançaram as tão desejadas Índias Orientais, aventurando-se para lá dos limites do mundo conhecido.

A partir do século XV, Portugal lançou-se na grande aventura da expansão marítima, na conquista de novos mercados comerciais e fontes de rendimento, sob a liderança astuta do Infante D. Henrique (1394-1460), o primeiro grande impulsionador dos Descobrimentos.
Foi o infante quem transformou a atividade marítima da Ordem de Cristo - puramente militar -, numa atividade científica, apoiando sem reservas as pesquisas científico-tecnológicas que conduziram a progressos nos domínios da navegação; Incentivou o aperfeiçoamento de instrumentos de navegação como o astrolábio náutico e o quadrante e a elaboração de cartas de marear mais rigorosas; Contratou cosmógrafos, geógrafos, cartógrafos e marinheiros com o objectivo de aprofundar os conhecimentos que tornassem a navegação pelos misteriosos oceanos mais segura.

Mas se D. Henrique foi o protagonista humano desta epopeia, o Algarve foi o espaço geográfico de referência para o seu sucesso. O Infante escolheu a costa sudoeste algarvia como base de apoio ao desígnio nacional de descobrir mais mundo.

Cedo apercebeu-se que a proximidade geográfica com a Andaluzia, o mediterrâneo e o atlântico, permitiam ao Algarve gozar de uma localização privilegiada ao comércio marítimo e às viagens de longa distância. Dos seus portos – Sagres, Lagos, Faro, Portimão – partiram as primeiras expedições que sondaram a misteriosa costa ocidental de África. Era uma verdadeira azáfama o que se vivia na costa litoral sudoeste, com naus e caravelas a cruzarem-se, acentua da também pela existência de uma tercena - edifício onde se guardam as embarcações - no estuário da Ribeira da Carrapateira.

Ao dinamismo do Infante, juntou-se a coragem dos portugueses que de norte a sul do reino lançaram-se ao mar para desbravar caminho desconhecido rumo ao Oriente. O grande objectivo era encontrar uma rota alternativa à dos comerciantes árabes que controlavam o monopólio das especiarias através das rotas terrestres, e vendiam posteriormente a mercadoria a preços astronómicos na costa mediterrânica. A coroa portuguesa não teve dificuldades em recrutar tripulantes para as expedições, uma vez que beneficiava da animosidade permanente que incentivava os portugueses a lutar contra os infiéis. Daí que a bordo dos navios seguissem soldados, funcionários do reino, agricultores, marinheiros, mercadores e religiosos, estes últimos encarregues de expandir a fé cristã.

Depois da conquista de Ceuta (1415) e descobertas as ilhas atlânticas – Madeira (1419) e Açores (1427), as expedições foram avançando cautelosamente. Em 1434, o navegador algarvio Gil Eanes dobra o Cabo Bojador, provando que havia mais costa africana a sul para além da conhecida. À medida que progrediam, os exploradores portugueses fundavam entrepostos comerciais. O tráfico mais cobiçado era o de escravos, ouro, marfim, cana-de-açúcar e malagueta que enchia os mercados de Lagos e Lisboa. Em pouco tempo, os Descobrimentos Marítimos tornaram-se numa autêntica empresa nacional lucrativa, passando a ser o suporte financeiro da coroa portuguesa.

Mesmo após a morte do Infante D. Henrique, os progressos continuaram até à primeira metade do século XVI. Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança em 1488 e, uma década mais tarde, Vasco da Gama chega à Índia, possibilitando aos portugueses a participação no desejado comércio das especiarias. Com esta viagem, os portugueses conseguiram pôr fim ao monopólio árabe no Oriente, aumentando a sua própria riqueza, poder e contribuindo para a revitalização da economia da Europa.

O NAUFRÁGIO DO LA CONDESA
Numa manhã tempestuosa de 1555, ao largo da Praia da Bordeira, as ondas furiosas e violentas chicotearam sem misericórdia o navio “La Condesa”, vindo das Índias Ocidentais. O “La Condesa” pertencia à armada espanhola e partira de Porto Rico em direção a Sevilha, carregado de ouro, prata, pedrarias e armamento em bronze. Apesar da preparação técnica dos navegantes, a fragilidade das naus e os ventos fortes e cortantes foram a combinação perfeita para dar-se a tragédia. Perante a fúria da natureza, a galé espanhola acabou por esbarrar contra uma rocha,

despedaçar-se e desaparecer nas profundezas destas águas. Comandada por Martin Alterco, a nau integrava uma frota de três navios – La condesa, San Salvador e Santa Catalina – da armada de Gonzalo Carvajal e deveria levar a Espanha, ao rei Carlos I, as riquezas embarcadas no Panamá uns meses antes.
Quando largaram o mar das Caraíbas, em agosto de 1555, a tripulação dos navios, sob o comando de Gonzalo Carvajal, conseguiu evitar confrontos com os temíveis piratas do mar franceses que infestavam o atlântico e que já estariam de sobreaviso sobre tamanha riqueza a bordo das embarcações. Mas a violência das tempestades e a fúria do mar são mais difíceis de vencer. Quando navegava a 40 léguas da costa dos Açores (cerca de 200 km), a frota foi atingida por um forte temporal. O Santa Catalina separou-se das outras duas naus, mas o esforço e a perícia de Gregorio de Renteria fizeram chegar o navio ao largo de Lisboa com tripulação e carga em segurança, em meados de dezembro. O tesouro a bordo seguiu para Sevilha por terra, em junta de bois. Menos sorte teve a tripulação das outras duas naus. Fustigadas pelo tempo a 390 léguas da costa portuguesa, acabaram por naufragar. San Salvador afundou ao largo de Buarcos, na Figueira da Foz.

Morreram cerca de cem pessoas, entre as quais Gonzalo Carvajal. A La Condesa bateu numa rocha, hoje conhecida como a Pedra da Galé, e afundou ao largo da Carrapateira. Com ela desapareceu todo o espólio e tripulação, à exceção de um carpinteiro que sobreviveu para contar a história.

Este misterioso naufrágio tem despertado a curiosidade de investigadores nacionais e estrangeiros que insistem na busca dos destroços da nau. Em 1991, dois mergulhadores portugueses - Vítor Cruz e Aníbal Campos - descobriram 50 canhões de bronze e, um ano depois, o arqueólogo francês Jean-Yves Blot detetou 20 falconetes. Depois de uma série de investigações levadas a cabo pelo Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), é praticamente seguro que as peças de artilharia pertençam ao navio espanhol naufragado no século XVI.

O tesouro, de grande valor histórico e cultural, é considerado por alguns investigadores como a maior descoberta arqueológica subaquática em Portugal, relativamente ao período dos Descobrimentos Marítimos. Os achados de suma importância permanecem no fundo do mar, mas espera-se que um dia sejam resgatados e trazidos à superfície, de modo a serem conhecidos e apreciados por todos.

O “La Condesa” é apenas um dos navios que permanecem no fundo do mar da Costa Vicentina. Tal como ele foram várias as embarcações que por aqui naufragaram, apresentando este local um potencial arqueológico elevado. Crê-se que o sino inglês com a inscrição “WAIMATE”, existente no campanário da Igreja da Carrapateira, tenha pertencido ao navio “SS Waimate” (1896-1925) que naufragou a cinco milhas ao largo do Cabo de São Vicente, em junho de 1925.

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A Pedra da Galé e os fósseis

Olhe no horizonte e encontre a Pedra da Galé. Os marisqueiros dizem que é lá que se escondem os maiores e melhores percebes. Agora, olhe para o chão. Há história debaixo dos seus pés! Incrustados nas rochas destas arribas, milhares de fragmentos de corais e pequenos invertebrados como estrelas e ouriços-do-mar escondem segredos milenares!

A PEDRA DA GALÉ
A Pedra da Galé é o local de eleição para os pescadores da Carrapateira. “É aquela pedra e não outra”, dizem os homens da aldeia, apesar de existirem muitos outros rochedos. Dizem que é também nesta pedra que se escondem os melhores percebes.
Mas a fama da Pedra Galé já vem de há muitos séculos. Era apenas uma rocha imponente que se erguia ao largo da Carrapateira, nas águas do Oceano atlântico, quando a galé espanhola “La Condesa”, vinda das Índias Ocidentais e estando à deriva devido a um forte temporal embateu nela. O navio despedaçou-se, afundou e com ele desapareceu todo o espólio constituído por ouro, prata, pedras e artilharia em bronze. Corria o ano de 1555. Desde então, a rocha é conhecida como a Pedra da Galé.
Como é um local de fundo rochoso, abundante em crustáceos, constitui umas das áreas preferidas dos pescadores artesanais locais. A apanha de marisco, especialmente a do percebe, constitui uma atividade com um grande impacto económico e social para as comunidades da Costa Sudoeste Alentejana e da Costa Vicentina. A apanha dos percebes é extremamente perigosa. Os marisqueiros descem as falésias abruptas, trepam à força de braços as cordas de segurança que outro companheiro - que permanece no topo da arriba – tem debaixo de olho, ao mesmo tempo que lutam contra a força das águas revoltas. Os segredos desta arte passam de geração em geração, tratando-se de uma atividade tradicional que conta com as mesmas ferramentas de antigamente. Os percebeiros ou marisqueiros apanham este crustáceo com a ajuda de uma arrilhada – Instrumento feito de um cabo de madeira, com uma ponta de ferro que separa o percebe da rocha – e um bornal ou saco de rede. O percebe, de nome científico pollicipes, é morfologicamente constituído por uma parte superior – o capítulo ou unha – e uma parte inferior – o pedúnculo. É um ser hermafrodita, incubando os ovos no seu interior até à eclosão larvar.
Salvaguarda a época do defeso, a apanha de percebe faz-se quando o mar deixa. No inverno é raro o dia em que mariscadores se lançam ao mar

e às pedras, mas no verão quase todos os dias são bons para esta atividade.

Sendo uma das maiores iguarias gastronómicas da região, a par das lapas, burgaus, mexilhões, moreia frita, navalheiras, e choco frito, os restaurantes locais - dos mais modestos aos mais conhecidos - servem este afamado petisco com intenso sabor a mar. O que os fósseis dizem da Terra Mas se os crustáceos vivos fazem as delícias da gastronomia local, a verdade é que também há corais, animais marinhos, bivalves, moluscos, conchas e ouriços-do-mar sedimentados nas altas arribas da Pontal da Carrapateira e que devido à erosão do vento estão agora expostos. Incrustados nas rochas sedimentares, os fósseis provam que, em tempos anteriores à existência do Homem, o Planeta Terra foi povoado por espécies de animais e plantas hoje extintas.

As informações recolhidas nas jazidas fossilíferas permitem-nos aferir da riqueza da biodiversidade e compreender a história da Vida. O fóssil é o resto de um organismo, ou os vestígios da sua atividade, que viveu num determinado momento da história da Terra e que se encontra preservado nos estratos das rochas sedimentares. A evolução da vida na Terra pode ser decifrada através do estudo dos fósseis e a Paleontologia é a ciência natural que se ocupa desse estudo.

Tudo começou há muitos milhões de anos, mesmo antes do período Jurássico, quando a Carrapateira era uma ilha com uma costa coralífera. Durante a Era Paleozóica (entre 540 milhões de anos a 250 milhões de ano atrás), numa altura em que havia dois supercontinentes, Portugal fazia parte do hemisfério sul e grande parte do nosso território estava coberto por água. Neste período foram depositados sedimentos finos no fundo mar que hoje se encontram transformados em xistos e grauvaques. Depois disso, muitos outros fenómenos naturais ocorreram. Os dois continentes colidiram formando um único continente gigante, a Pangeia, e o mar recuou. E novas mudanças ocorreram. O continente gigante fragmentou, o mar voltou à costa e outros sedimentos voltaram a ser depositados e sedimentados. As alterações do nível do mar estão diretamente relacionadas com as mudanças climáticas que a Terra sofreu ao longo dos últimos milhares de anos.

Durante os períodos Jurássico (entre 199 e 155 milhões de anos atrás) e Cretácio (entre 145 e 65 milhões de anos atrás), a região que corresponde ao Algarve já estava no hemisfério norte, tinha um clima mais quente, húmido e estava mais próxima do Equador. Daí que os fósseis encontrados nesta zona sejam semelhantes aos que existem nos atuais mares tropicais. Há estudos que mostram que os sedimentos de idade jurássica estão bem representados no afloramento Mesozóico da Carrapateira, constituídos por mais de 3000 metros de sedimentos essencialmente marinhos. A Baía das Três Angras corresponde a uma faixa costeira formada pelas arribas do Pontal da Carrapateira, e compreende uma sequência sedimentar constituída por margas e calcários, durante o Jurássico Superior, com base em macrofauna, principalmente de corais.

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O Porto da Zimbreirinha e a pesca artesanal

Assente nas escarpas rochosas, o antigo porto de pesca é um lugar de histórias, de aventuras e de memórias dos pescadores locais. Construído na vertente sul do Pontal da Carrapateira, protegia as embarcações das nortadas e é um dos mais antigos portos do concelho.
Mas sabia que a história deste porto começa com uma singela raiz de Zimbreiro?

Construído nas escarpas rochosas, o antigo porto de pesca da Zimbreirinha é um lugar de histórias, de aventuras e de memórias dos pescadores locais. Virada a Sul, esta pequena e pedregosa enseada do Pontal da Carrapateira protegia as embarcações das nortadas. Apesar das adversas condições de acesso, via terra, à enseada, o saber e a experiência levaram os homens da aldeia a escolherem este local para guardarem os seus barcos porque era o que garantia melhores condições de segurança para acesso das embarcações ao mar e de aproximação a terra. Desta forma, criaram uma rampa em palafita sobre a concavidade da rocha, através da qual deslizavam os barcos até ao mar e das águas para terra. Essas engenhosas plataformas em madeira e canas apoiadas na arriba serviam para proteger os barcos da fúria do mar e o ancoradouro constitui um dos mais antigos portos de pesca do concelho.

Até à década de 50 do século XX, a pesca era uma atividade complementar à agricultura e em regime de autoconsumo. Algumas famílias mais pobres, sem dinheiro para terem uma horta, dedicavam-se à pesca, trocando o pescado por alguns produtos agrícolas. Mas como a agricultura conheceu uma época de recessão, a população, para fazer face às dificuldades, virou-se mais para a pesca e para apanha do marisco. Muitos homens puseram a vida em risco para sustentarem a família, pois aqui a natureza revela-se imponente e ameaçadora. Não poupa nem os mais prevenidos, experientes, sábios, ou corajosos, muito menos os incautos. Muitos pescadores viram os seus companheiros de faina perderem a vida. Carregados com os seus apetrechos artesanais – redes, anzóis, linhas - os pescadores desciam os penhascos abruptos à força de braços, presos a uma corda, que por sua vez estava atada a uma raiz de zimbreiro, um pequeno arbusto, resistente, que nasce na aridez e rudeza do solo desta região. Lá em baixo, onde a força das águas revoltas se faz sentir, palmilhavam rochedos, pedras

e escarpas, a maior parte das vezes submersos pela espuma branca da rebentação. Com a ajuda das suas arrilhadas, instrumento feito de um cabo de madeira e com uma ponta de ferro, arrancavam os percebes às rochas. Em época do defeso do percebe, dedicavam-se à apanha de outras espécies como as lapas, os mexilhões, navalheiras e polvos. Outras vezes pegavam nos seus pequenos botes e pescavam robalos, douradas, enguias e sargos. Quando o dia da pescaria terminava, os homens voltavam a subir a falésia, trepando as cordas pelas arribas acima e com a mercadoria pesada às costas. Era depois transportada em junta de bois para ser vendido nas vilas mais próximas.

Porto de muitas miragens, de contemplação da paisagem exuberante, o Porto da Zimbreirinha servia também de abrigo para os pescadores que em época de faina, pernoitavam nos buracos da rocha, durante uma semana, sem irem a casa.
Mais tarde, no topo da arriba, foram construídas umas casinhas de colmo viradas para o mar e que serviam de armazém aos pescadores. Eram apelidadas de "estromas" (tapetes).
A idade exata do porto é desconhecida, no entanto, sabe-se que este porto já conta com mais de 100 anos, tendo mesmo servido de ancoramento de caravelas que ali desembarcavam para levar as mós para os moinhos da aldeia.

O porto foi fechado no dia 04 de maio de 2010, após uma derrocada causada pelas chuvas torrenciais de 28 de fevereiro desse ano, destruindo a sua estrutura. Os pescadores passaram a utilizar o Portinho do Forno para guardarem as suas embarcações. Hoje, a pesca e a apanha do marisco são fontes de receitas importantes, embora o turismo também comece a ser uma mais-valia na economia local.

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A baía de Concheiros

Sabe o que comiam os homens pré-históricos? Exatamente o mesmo que comemos hoje. As conchas espalhadas no chão revelam que as primeiras comunidades costeiras alimentavam-se de ostras, berbigão e outros moluscos. Mas as cascas dos moluscos tinham ainda outra função. Sabe qual?

«Grande concheiro na foz da Ribeira da Carrapateira ou Praia da Bordeira. Este concheiro localizado inicialmente só a norte do passadiço de acesso à praia estende-se até à ponta da rocha que cai abruptamente no mar. Foram recolhidos vários fragmentos de cerâmica e dois pequenos pesos de rede em grauvaque. Não se encontraram burgaus, no entanto surgiram concentrados num só local conchas de forma em espiral turritela que não se encontrou noutro concheiro». A descrição deste achado de concheiro, datada de 2003, é uma entre muitas das descobertas arqueológicas levadas a cabo pela Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur.

Os concheiros são vestígios de acampamentos sazonais deixados pelas comunidades pré-históricas do período Mesolítico (de 8.500 até 5.500 A.C) quando deixam de ser nómadas a tempo inteiro e procuram fixar-se, pelo menos durante o verão, perto do mar e margens de rios.

Eram pequenas comunidades de caçadores-pescadores-recolectores que se dedicavam à caça e à pesca, mas faziam da apanha de moluscos a sua principal atividade de subsistência. O ambiente marítimo da Costa Vicentina foi um dos seus habitats preferidos, onde abundavam peixes, crustáceos e conchas. Os recursos do mar passaram a ser uma parte essencial da dieta destas populações mesolíticas. Para pescar e colher os moluscos, desenvolveram também diferentes artefactos, como anzóis, redes de pesca e arpões.
Porém, se os concheiros serviam como uma espécie de lixeira para onde eram atiradas as cascas dos moluscos, eram também usados como necrópoles e lugares de ritualização. As conchas serviam como oferendas funerárias assumindo um valor simbólico e místico.

Durante o ritual fúnebre, os mortos eram cuidadosamente colocados na sepultura em decúbito dorsal, pernas semi-flectidas e braços cruzados sobre o abdómen, em posição de concha, e depois polvilhados e adornados com colares feitos de pequenos búzios e cascas de moluscos.

H

O pontal esculpido nas rochas

Açoitado pelo mar e pela aridez do vento, o Pontal da Carrapateira é recortado por falésias abruptas de grande valor geológico. Caminhe e desfrute da beleza deste “geo-monumento”, composto por um variado conjunto de rochas de calcário, xisto e quartzito, o qual conta a história da Terra.

A história da Terra encontra-se escrita nas rochas. Através delas, dos minerais e dos fósseis ou, por outras palavras, através da Geologia podemos conhecer grande parte da história do nosso Planeta, que nem sempre foi como hoje o conhecemos.

A Geologia é o ramo das ciências naturais que se ocupa do estudo da Terra. As rochas, a água, o ar e todos os seres vivos fazem parte de uma longa e complexa evolução do Planeta, que conta com cerca de quatro mil quinhentos e setenta milhões de anos. É uma história feita de acontecimentos, ora rápidos e de extraordinária violência, como a atividade vulcânica, ora lentos e extremamente calmos, como a erosão.

Como a Terra é um planeta geologicamente activo, as rochas são associações de minerais que se formaram em determinadas condições de pressão e de temperatura e que são continuamente alteradas por diversos fenómenos ambientais, como a acção da água, a acção dos seres vivos ou a acção erosiva da água e do vento. Ao longo do tempo ocorreram um conjunto de processos geológicos que se manifestam numa extraordinária variedade de rochas encontradas na região do sudoeste português. O litoral da Costa Vicentina é essencialmente rochoso, marcado por arribas ou falésias escarpadas sobranceiras ao mar. Estas falésias contam com cerca de 150 milhões de anos, têm pouca cobertura vegetal, e estão muito fraturadas devido aos movimentos das placas tectónicas.

Para melhor se entender a evolução da Terra, foi convencionado dividir a história da Terra numa Escala do Tempo Geológico. Assim, as falésias da Costa Vicentina

correspondem às Eras Paleozóica (entre 540 milhões de anos a 250 milhões de anos atrás) e Mesozóica (Entre 250 a 65 milhões de anos atrás) que abrange os períodos Triásico, Jurássico e Cretácico.

A superfície do Pontal da Carrapateira – que começa no extremo sul da Praia da Bordeira e termina na zona norte da Praia do Amado – é formada por calcários dolomíticos, dolomitos, xisto e margas fossilíferas. A costa alta e rochosa é pontuada por pequenas praias, protegidas por sistemas dunares, ou por arribas mais recuadas. Já as rochas da Praia do Amado são constituídas pelos Arenitos de Silves, que resultam da consolidação de areias, e com largo predomínio de um mineral, o quartzo. Estes arenitos são claramente de origem continental e foram trazidos até ao local por cursos de águas fluviais.

A partir do meio da praia até à extremidade sul começa a aflorar a Era Paleozóica, composta por xisto, grauvaques e siltitos. Os siltitos têm uma coloração cinzento-escura a negro, laminados, e apresentam uma composição mineralógica variada.

Há muitos milhões de anos, toda esta região ficava mais perto da linha do Equador do que está hoje. As temperaturas do mar e da superfície eram superiores às atuais e no que hoje chamamos Carrapateira existiria uma zona costeira tropical, com um recife de coral adjacente. Uma vez que a Terra é um tecido vivo, em constante mutação, muito mudou deste então. Graças às rochas e aos fósseis sedimentados nas rochas, o Homem pode entender a sua própria história, de onde veio e para onde vai.

I

Flora e fauna

Há algas vermelhas, verdes e castanhas. Há invertebrados de várias formas, cores e tamanhos, peixes e mamíferos. Há as plantas rupícolas, as atlânticas e as serranas. E há corvos-marinhos que poisam nas falésias e cegonhas-brancas que nidificam nos rochedos. Todos são uma pequena parte do nosso imenso ecossistema, porque há ainda tantos outros segredos por desvendar!

FAUNA E FLORA AQUÁTICAS
A Costa Litoral Vicentina possui um valioso ecossistema marinho, com uma variedade de seres vivos, habitats e formas de vida tão complexos que estão além da nossa imaginação. Esta elevada biodiversidade está relacionada com os diferentes fundos e com o encontro de influências das águas do mediterrâneo, do norte de África e do atlântico.
Fundos rochosos, baías e sistemas lagunares são excelentes habitats para muitas espécies marinhas crescerem e reproduzirem. Fornecem-lhes também abrigo e alimentação. Todos estes elementos traduzem-se numa grande variedade de flora e fauna marinhas.

A flora marinha da Costa Oeste é dominada por espécies de algas vermelhas, como a Lithophyllum, as verdes, Codium e Enteromorpha, e as algas castanhas. As macroalgas, juntamente com o

fitoplâncton, são plantas fotossintéticas que consomem dióxido de carbono e produzem oxigénio, estão na base da cadeia alimentar e servem de alimento a peixes, moluscos, esponjas, etc. As algas são visíveis na baixa-mar e apresentam uma grande diversidade de cores, formas e tamanhos.

A biodiversidade das comunidades marinhas é rica, estando identificados dezenas de invertebrados. Estes animais vivem junto ao solo, em fundos arenosos ou rochosos. Os invertebrados marinhos mais explorados no litoral rochoso são os percebes Pollicipes pollicipes, a lagosta Palinurus elephas, os búzios Charonia lampas, Ranella gigantea, o polvo Octopus vulgaris, os caranguejos, a santola Maja squinado, a navalheira Eriphia verrucosa, o lavagante Homarus gammarus, o ouriço-do-mar Paracentrotus lividus, os mexilhões Mytilus galloprovincialis, as lapas Patella spp e os burriés Osilinus spp, Gibbula spp. Os afloramentos rochosos são um habitat muito importante para a alimentação de peixes, como os cabozes, esparídeos e bodiões, servindo igualmente de esconderijo e área de emboscada para certos moluscos predadores como o polvo Octopus vulgaris e o choco Sepia officinalis. Em torno dos rochedos vagueiam também abundantes cardumes de sargos, safios e robalos que fazem as delícias dos pescadores. Nos fundos das praias, de solo arenoso, podem observar-se estrelas e pepinos-do-mar. Já os fundos rochosos possibilitam uma variedade de habitats, composto por espécies de animais como o mero Epiphenelus marginatus, os cavalos-marinhos Hippocampus hippocampus e H. guttulatus, peixes migradores como a enguia Anguilla anguilla e sável Alosa alos.

Quanto à fauna aquática, os sistemas lagunares/ribeirinhos, de que é exemplo a Ribeira da Carrapateira, mostram uma diversificada comunidade de anfíbios, salientando-se a presença da salamandra-de-costelas-salientes, do sapo Bufo bufo, o sapo-de-unha-negra Pelobates cultripes e o sapinho-de-verrugas-verdes Pelodytes punctatus.

Atualmente, as espécies mais vulneráveis são o mero Epiphenelus marginatus, os cavalos-marinhosHippocampus hippocampus e H. guttulatus, peixes migradores como a enguia Anguilla anguilla e sável Alosa alosa, bem como os cabozes - Gobius spp. Parablennius spp. e Lipophrys sppmas.

FLORA E FAUNA TERRESTRES
Situado na costa litoral da Costa Vicentina, o Pontal da Carrapateira tem um importante ecossistema e uma diversidade rica de flora e fauna terrestre.
Os seus habitats naturais são de grande valor ecológico, destacando-se as falésias, o planalto costeiro e os barrancos serranos. Há uma mistura de vegetação mediterrânica e atlântica, com predominância para a primeira. Nas zonas de afloramento de rocha, expostas ao mar, dadas as condições agrestes, a vegetação é de pequeno porte. Nos promontórios rochosos, o solo é colonizado por arbustos perenes e plantas rupícolas e a vegetação dunar encontra-sebem conservada. Há plantas endémicas, ou seja exclusivas desta região, como a Biscutella vicentina, Scilla vicentina, Centaurea, vicentina, Diplotaxis, vicentina, Hyacinthoides, vicentina, Cistus palhinhae, Plantago almogravensis, e outras espécies consideradas raras, como o Samouco Myrica faya, a Sorveira Sorbus doméstica e a Silene rotlunaleri.

Por se tratar de uma zona de arribas marítimas é um local excepcional para a avifauna, muito favorável à nidificação de diversas aves. Assim, destaca-se a presença de várias rapinas, como o Peneireiro-das-torres, a Águia-pesqueira e o Falcão Peregrino que utilizam as concavidades das arribas e ninhos antigos de outras espécies para nidificar. As numerosas escarpas constituem ainda o habitat de nidificação de corvídeos e ardeídeos, nomeadamente da Gralha-de-bico-vermelho Pyrrhocorax pyrrhocorax e da Garça-branca Egretta garzetta. Esta área alberga ainda, a única população mundial de Cegonha-branca Ciconia ciconia que nidifica em rochas e escarpas litorais. As arribas são também utilizadas como local de nidificação pelo Andorinhão-real Apus melba e por passeriformes como o Melro-azul Monticola solitarius e o Rabirruivo-preto Phoenicurus ochruros.

Por aqui também passam aves que utilizam a plataforma migratória entre Africa e a Europa, tais como, o pisco-de-peito-azul Luscinia svecica, o papa-moscas-preto Ficedula hypoleuca, o papa-amoras-comum Sylvia communis, o alcatraz Sula bassana, a andorinha-do-mar Sterna hirundo, a águia-calçada Hieraaetus pennatus e, esporadicamente, o falcão-da-rainha Falco eleonorae ou o búteo-mourisco Buteo rufinus, entre muitas outras. A faixa de mar adjacente à costa é percorrida por milhares de aves marinhas, nomeadamente por Alcatrazes Morus bassanus, Fura-buchos Puffinus mauritanicus, Cagarras Calonectris diomedea, Moleiros-pequenos Stercorarius parasiticus, Alcaides Stercorarius skua, Garajaus Sterna sandvicensis, Gaivinas Sterna hirundo e Tordas megulheiras.

É possível encontrar lontras Lutra lutra que utilizam o habitat marinho, abrigando-se nas arribas marítimas e barrancos adjacentes, bem como texugos Meles meles que escavam tocas nas falésias, sacarrabos Herpestes ichneumon e fuínhas Martes foina. A existência de grutas faz com que a comunidade de morcegos também seja extremamente diversificada. Entre os répteis encontram-se, por exemplo, a cobra-rateira Malpolon monspessulanus e a cobra-lisa-bordalesa Coronella girondica.

J

Povoado Islâmico da Ponta do Castelo

Vestígios de uma aldeia de pescadores árabes, do século XII, que se dedicava sazonalmente à pesca e à apanha do marisco.
Sabia que durante a ocupação islâmica na Península Ibérica, nem sempre mouros e cristãos foram adversários? Existiu uma ligação entre os dois povos que misturaram de forma espontânea e pacífica hábitos e costumes.

Neste penhasco abrupto de calcário cor de mel sobranceiro à rebentação do atlântico encontram-se vestígios de um pequeno povoado de pescadores árabes, do século XII, provavelmente sazonal, dedicado à exploração de recursos marinhos.

Após diversos trabalhos de intervenção arqueológica, foram descobertas 14 estruturas habitacionais, constituídas por uma única divisão, com planta retangular, edificadas em taipa sobre alicerces de pedra. Entre o espólio, encontraram-se cerâmicas de uso comum (taças, jarros, panelas e alguidares), anzóis de ferro, pesos de rede e restos de fauna marítima e terrestre.
A exploração dos recursos marinhos era uma atividade sazonal, consoante as estações do ano, complementar à agricultura - um legado que se prolongou no tempo, pois os habitantes da costa algarvia fizeram da economia agro marítima o seu sustento, ainda frequente no século passado.

Quando o mar e o tempo permitiam, a fonte principal de alimentação dos árabes era o peixe e o marisco, mas o peixe, depois de salgado e seco, podia entrar nos circuitos comerciais, servindo como moeda de troca com produtos diferentes de outras regiões do interior, como cereais.

Numa das zonas habitacionais foi mesmo encontrado um osso da baleia com cerca de meio metro de comprimento, provavelmente usado como banco, e que terá sido capturado durante a pesca àquele cetáceo, hoje desaparecido

dos mares do Algarve, mas abundante na época do Garb al-Andalus.

A influência islâmica na Europa fez-se sentir especialmente na Península Ibérica, pois os mouros do norte de África haviam conquistado regiões de Portugal e Espanha, entre os séculos VIII e XIII. Mas na época medieval, nem sempre mouros e cristãos foram adversários. Houve uma enorme ligação entre estes dois povos que acabaram por misturar de forma espontânea e pacífica hábitos e costumes. Os portugueses beneficiaram do grande conhecimento de geografia, astronomia e matemática que os árabes, um povo mais evoluído à época, já detinham. Os árabes deixaram ainda a numeração, as noras, os citrinos, assim como as palavras começadas por al. Mas deixaram muito mais: a alma, a gastronomia, o canto, a paixão pelas artes e lendas.

Todo o espólio deste assentamento – um contributo muito importante para o conhecimento da vida daquelas comunidades, bem como da herança cultural por elas legadas - encontra-se exposto no Museu do Mar da Terra e da Carrapateira.

K

Praia do Amado

Aninhada entre arribas, a Praia do Amado é sinónimo de natureza em estado puro. É uma das mais procuradas pelos amantes do surf e do bodyboard. Ganhe coragem, aventure-se a mergulhar e sinta a frescura destas águas transparentes e revoltas.

São os ventos fortes e as ondas gigantes que fazem do Amado uma das melhores praias portuguesas para o surf. A Praia do Amado localiza-se perto da aldeia da Carrapateira, no concelho de Aljezur. Com um extenso areal de 1,2 km e delimitado a Sul e a norte por altas arribas que se prolongam pelo mar adentro, é também palco de diversas competições nacionais e internacionais de surf.

A norte desta praia imperam os tons vermelhos e laranjas das arribas rochosas do Pontal da Carrapateira, uma plataforma de grande valor ambiental, com habitats importantes para a conservação da natureza. A Sul, a paisagem é muito rica do ponto de vista geológico, dominada pelas cores cinzentas das rochas sedimentares, metamórficas e de origem vulcânica (xistos, calcários e doleritos).

Antigamente, as famílias que viviam na aldeia escolhiam esta praia para os seus piqueniques de

fim de semana e, no dia 29 de agosto - considerado um dia especial e de grande tradição para esta região – homens, mulheres, crianças e até os animais iam a banhos porque acreditava-se que a água estava benta.

Hoje, a praia é bastante frequentada por amantes de desportos náuticos que usufruem das excelentes condições naturais da costa. Há também várias escolas de surf e bodyboard que ensinam os principiantes destas modalidades, com uma oferta variada de aulas e programas de férias. A adrenalina está sempre presente na Praia do Amado, o desafio é uma constante. O mar, as ondas revoltas e os amantes do desporto são os protagonistas.